A criação consciente de filhos e a Biografia Humana

Antes de ter meu filho, caiu em minhas mãos um livro contundente: A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra. Livro que precisa ser lido sem as amarras do automatismo patriarcal, que coloca a todos em papéis de dominados e dominadores, ou seja, há sempre um culpado. Laura Gutman nos coloca de forma clara e honesta que as coisas que vivenciamos desde a barriga e com que olhar nossos pais ou cuidadores nos depositaram o personagem que seguimos na vida, influencia em nossas escolhas futuras e acontecimentos. Em nenhum momento ela fala em culpa! Relata que a maneira como os pais criam seus filhos, é a maneira como conseguem fazê-lo e que é importante, quando olhamos de forma honesta para nossa história, que possamos lembrar disso e de que hoje somos adultos e podemos fazer escolhas diferentes e mais coerentes com nosso coração.

Assim começou minha jornada de autoconhecimento profundo. Desde a adolescência interessei-me por assuntos que me possibilitassem conhecer melhor as nuances de nossas profundezas e por estar melhor do que já fui ontem. Porém a maternidade é uma oportunidade ímpar para entrarmos em contato com as idiossincrasias da formatação por que passamos e, se olhamos com lucidez para o comportamento de nossos filhos, podemos entrar em contato muito profundo com nossos sentimentos e sensações escondidos, e com isso escolher reações diferentes, que nos alinhem com nossa verdade.

No seminário que organizei com Laura Gutman em São Paulo (2012), ela contou que não gosta do livro A Maternidade, porque desenvolveu ao longo dos anos, uma metodologia chamada Biografia Humana, que entende que todos nós, independente de termos filho ou não, podemos encarar nossa história com mais clareza e consciência e, a partir disso, decidir quais encaminhamentos faremos sobre as coisas da vida que nos incomodam ou estão desencaixadas, sob o ponto de vista de nossas sensações.

Através do processo de autoconhecimento da Biografia Humana, ela nos permite entender que qualquer obstáculo ou dificuldade na vida pode ser encarado pelo viés de nossa “sombra”, aquilo que ficou escondido pelas proteções criadas para nossa sobrevivência e que, apesar de estar no inconsciente, determina parte de nossas reações ao que acontece em nossas vidas. A Biografia Humana permite-nos reconhecer esses mecanismos de sobrevivência emocional; entender os discursos que ela chama de “enganados”, por se tratarem de discursos repetidos sem que haja o sentido pessoal do que se entendeu emocionalmente; organizar a trama de vínculos que nos constituem; até o encontro com nosso ser essencial.

Assim como aprendi em outras instâncias, além de nascer como seres humanos, a forma como nossos cuidadores nos enxergam , como nomeiam as coisas para nós, a maneira como interagem conosco, vai nos constituindo. Diz-se que “damos nascimento” de criança bem comportada, quando repetimos que nosso filho é bem comportado, levando-se em conta toda a carga de “bem comportado” que o termo carrega para cada um de nós. Por exemplo, se “ser bem comportado” significa que a criança precisa fazer o que agrada aos outros, se é dar um beijo nos outros (mesmo que ela não queira), se é tirar nota 10, independente de seu processo de aprendizagem, se é apenas respeitar suas sensações e emoções e obedecer a seus sentimentos, ajustando-se para ter reações alinhadas consigo mesmas…Cada desejo ou nascimento que damos, constitui quem somos, como interagimos, como resolvemos nossos conflitos emocionais.

Nesse ponto, há muitos enganos de interpretação, logo nossa defesa reage dizendo que “então não podemos falar ou fazer nada, porque nossos filhos ficarão complexados”. Não se trata disso, a Biografia Humana nos coloca no papel de adultos conscientes, capazes de fazer escolhas mais coerentes conosco. Laura lembra-nos nesse processo de autoconhecimento que tudo o que as crianças necessitam, são pais que questionam a si mesmos, da forma mais honesta possível.

Ao nos questionarmos sobre o comportamento de nossos filhos, ao invés de interpretar cada coisa que fazem, querendo encontrar a origem se seus comportamentos, ao invés de encerrar nossos filhos em personagens como “o bonzinho” ou “o agitado”, pudéssemos olhar profunda e honestamente as coisas que sentimos e pelas quais estamos passando, nomeando para as crianças o que está acontecendo, como nos sentimos, ajudando-as a entender seus próprios sentimentos, então as vivências internas, as sensações, as percepções teriam um lugar real onde pudessem se manifestar, ajudando as crianças  a encontrar reações coerentes com aquilo a que estão sentindo e não deslocadas dos fatos.

Explico: para entender a Biografia Humana, Laura clareia que muitas vezes as crianças fazem um pedido original que não é levado em conta, ou porque não temos tempo para ouvi-las de forma clara, ou porque não estabelecemos um nível de conversa honesta com elas, e muitas outras razões que saberemos reconhecer. O fato é que muitas vezes as crianças nos solicitam colo, carinho e principalmente presença verdadeira e não entendemos isso em seu pedido original, então elas começam a pedir o mesmo, através de solicitações intermináveis de “balas”, “brinquedos”, comidas em geral” até o extremo de não falar (porque não são escutadas verdadeiramente), e atirarem-se no chão, baterem, gritarem, e nos deixarem em “maus lençóis”.

A verdade é que elas não nos deixam em maus lençóis, elas tem uma imaturidade emocional que limita suas escolhas de interação, diferente de nós que, a princípio, somos adultos e temos plenas capacidades de escolher como vamos reagir e nos comunicar de forma harmoniosa…Atenção! A Biografia não julga nem pretende seres humanos perfeitos, apenas o mais honestos possíveis consigo mesmos, atentos a suas sensações e responsáveis por suas escolhas, uma vez que encontramos os recursos suficientes para saber como lidar de outras formas com a vida.

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E isso é transformador! É um desafio estarmos conscientes, nos desacomoda internamente, nos tira da zona de conforto, porém nos possibilita estarmos mais inteiros, aproximar-nos de nossa essência, e então as incoerências que sentimos entre os fatos e nossa realidade interna, diminuem, nos proporcionando mais qualidade de vida e de relações conosco, com o mundo e com os outros. Encaro essa transformação pessoal como a única maneira de conseguirmos transformar o mundo, no sentido de que cada um estando consciente, agirá de forma diferente e, então, mudamos em nós o que queremos ver no mundo. Bem clichê, mas não mudaremos a nada nem ninguém, jamais. Apenas mudaremos nossas reações, nossas interpretações, nossos olhares, e isso mudará nossas relações, nossa interação.

“Quero ressaltar que não importa se nossa mãe (ou cuidadores) ‘fez tudo certinho’. Não importa se foi uma mãe fenomenal, calma, paciente, sacrificada ou justiceira. O que os filhos necessitam para criar seres alinhados com seu ser essencial e em profunda conexão consigo mesmos, é que seus cuidadores compreendam a si mesmos. Se não tivermos cuidadores adultos e maduros, consciente de seus próprios estados emocionais e sua história, essa sabedoria não será derramada sobre as crianças. Por isso, é pouco provável que as crianças quando cresçam olhem para suas vidas em estado de total consciência. Tornar-nos adultos é tomar as rédeas de nossas vidas, atravessar os bosques para enfrentar de frente nossos dragões internos, olhá-los nos olhos e ao final desse caminho cheio de perigos, decidir quem sou eu. A partir desse momento, seremos totalmente responsáveis pelas decisões que tomamos em nossas vidas  em todas as áreas, incluindo a capacidade de não encerrar nossos filhos (se os temos) nos personagens que sejam mais convenientes para nós.” Trecho do livro La Biografía Humana: una nueva metodología al servicio de la indagacion personal, de Laura Gutman.

Este ano estou trazendo Laura Gutman de volta a São Paulo, em parceria com a Ligia, autora do blog Cientista que Virou Mãe. O encontro com ela é precioso e transformador! Abrimos algumas vagas promocionais, que já estão terminando. Se quiser saber mais sobre o Seminário Biografia Humana, de Laura Gutman que acontecerá dia 01/11/2014 em São Paulo, e fazer sua inscrição, clique na foto abaixo para ser direcionado ao blog do evento lauragurmannobrasil.blogspot.com.br

capa site

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3 comentários em “A criação consciente de filhos e a Biografia Humana

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  1. Juliana, tudo bem?
    Estou conhecendo o site agora. Gostaria muito de ler exemplos de como esse processo de autoconhecimento funciona na pratica, vivencias cotidianas para uma melhor compreensao dessas relacoes. Obrigada.

    1. Oi Victoria, muito obrigada pelo comentário e sugestão! Estou produzindo alguns artigos sobre esse processo, que seguem da construção de um livro que sairá em 2015, então, vou colocar alguma coisa por aqui para adiantar o assunto, sim! Obrigada!!

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